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sexta-feira, 24 de abril de 2015

"MAIAS" E "MAIOS"

Como a  Fada  Madrinha se recusou a dar-me a informação necessária, tive que ir aos livros...
O burro, de que nem sequer se pode pronunciar o nome ,é o mesmo que o Demónio . Já se tinha adivinhado... Também já se sabia que estas tradições lembram antiquíssimos  ritos e cultos agrários para celebrar o fim do Inverno e o despertar da vida com a Primavera. As  simples e perfumadas giestas, além de o não deixarem entrar, afastam também maus olhados e impedem igualmente as bruxas de entrar em casa,doenças,fracas colheitas.Impedem, até, as aranholas de atacar os celeiros. Enfim, um sem número de benefícios num gesto tão barato e bonito. Ainda bem que se mantém a tradição. Hoje é tudo tão caro.
"A identificação do Maio com o burro poderá  representar o tributo - designado " cavalo de Maio" - pago na Idade Média, no dia 1 de Maio, por todos aqueles que não possuíam um cavalo em boas condições para a guerra." Idade Média ? Idade das Trevas... sempre os pobres a pagarem !!
Disse à Fada Madrinha que, quanto a mim, o Diabo não se deixa enganar por adocicados aromas e singelas flores.Mais me parece que os homens querem uma razão para festejar a Primavera que tráz consigo o segredo do nascimento.Temem, ainda,chuvas e trovoadas e nem com sofisticados anti-oídios e míldios ficam descansados."Uma mãosinha" ,mesmo que não se sabendo de onde vem dá jeito...Ela riu e recomendou-me que se não me protegi este ano que o faça para o próximo,porque não é só em Trás-os-Montes que se usam estes símbolos exorcizantes, mas também no Minho, na Beira Litoral, no Alentejo e no Algarve e Ilha da Madeira e Açores. Assim farei, mesmo que tudo só me livre de tossir depois de morta...

quinta-feira, 23 de abril de 2015

PÓ DE MAIO

Quando pergunto à Fada Madrinha se não quer que lhe compre algum remédio para as borbulhas vermelhas que vejo aparecerem nas orelhas e nariz, mostra-me as mãos com os dedos em ferida. Sorri para mim e diz : " Não é preciso ! Vem aí o pó de Maio."  Eu sempre à espera de alguma magia e ela ...de  Maio. Quando a visito de novo no dia um de Maio vejo magia à minha volta. A Primavera já chegou, tudo voltou a germinar, tudo renasce e brota em flor, acabaram-se as trevas. É o retorno à luz. Há promessa de nova colheita e os homens alegram-se antecipadamente. Tem as portas e janelas enfeitadas com giestas brancas e amarelas. Não escapa a porta  do armazém,do casebre onde guarda a lenha , onde já viveram galinhas; em todos os buracos e fechaduras! Pergunta-me se, também , fiz o mesmo."É para o burro não entrar!" - Diz
 "Em todo o lado?!" Está a brincar comigo; tinha que ter apanhado um camião de giestas para colocar em todos os buracos, não sou como ela que basta estalar os dedos...ri-se. "Come lá uma castanha pica..."  Castanhas que ela mesma apanhou, descascou,tirou a pele e secou.
 " É para o burro não morder ou partir a louça." - Acrescenta . Indignada, já pergunto : " Mas afinal que burro é esse que se assusta com giestas e castanhas picas ?" Dá uma gargalhada e diz: "Nem o nome dele se deve pronunciar! " E acrescenta: " É, também, por causa das bruxas e carrapatos". "Carrapatos?!! Mas o que é isso?? Qualquer Dum-Dum dá cabo disso!" Insisto com perguntas até perceber de onde vem a tradição; ela ri e diz: "Não sei !Já a minha Mãe e avó faziam assim..." E diz que se eu no dia 30 de Abril não coloquei as "maias" nas portas e janelas, para que o nascer do dia as encontrasse floridas, o Maio chegou a cavalo num burro branco e partiu a loiça toda.
Quando saí de casa estava tudo tranquilo...talvez seja desta que se mude o serviço de loiça...

25 DE ABRIL

Mais um ano passado sobre a data histórica ! Desta vez as comemorações são na mui nobre e antiga cidade de Lamego, aqui tão perto da CASA DO FUNDO DO POVO.Passe por aqui !

Lamego tem muitas e belas igrejas para visitar, um Santuário de grande beleza, um Museu onde para além de visitar belíssimas obras de  arte, pode beber um vinho espumante no seu pátio transformado em espumanteria !

As vinhas que nos rodeiam estão lindas, de um verde muito juvenil, cresceram e aplicam-se já os primeiros tratamentos. Temendo ainda as trovoadas, começamos a festejar a Primavera que chega de mansinho.Gozamos já as delícias dos quentes dias de Verão, antecipamos a alegria das colheitas com muito trabalho ainda para fazer !

quinta-feira, 16 de abril de 2015

BACALHAU Á MIL DIABOS

A Menina Moscatel diz: " Se bem te conheço, vais alterar as receitas todas..." . Isso é só porque há ingredientes de que gosto mais e outros menos. Sei que há outra forma ,ou outras formas,de fazer este bacalhau mas esta é como eu aprendi e gosto mais.
Fazem-se umas postas de bacalhau "albardado"
( M.M. arregala os olhos e  vira-se para um lado e para o outro como à procura do burro...) Albardado quer dizer passado por farinha e ovo, explico.Depois de demolhado, é claro. Há coisas que os bons cozinheiros já sabem de antemão...não é preciso dizer tudo... Fritam-se batatas em rodelas muito finas. (Não escapamos de cortadelas ligeiras nas maus parar termos umas batatas finas e estaladiças. Ossos do oficio. ) Colocam-se num tacho camadas de batatas e de bacalhau, alternadamente. Faz-se um refogado com azeite, bastante cebola às rodelas e  tomate aos pedaços.Tempera-se com sumo de limão,pimenta,uma pitada de sal.Junta-se-lhe uma gema de ovo e deita-se o refogado por cima das camadas de bacalhau e batatas. Leva-se o tacho a lume brando para cozinhar a gema do ovo e apurar. Servido muito quente como eu gosto, com um bom vinho. Esta é uma receita para o Inverno e mesmo com a lareira acesa não me atrevi a tirar o meu casaco vermelho. Sei de uma pessoa que se me visse diria : " Hoje está vestida à diabo!" o que certamente não ia mal com o bacalhau...ou será que o nome da receita vem daí?

BACALHAU, O TAL...

...fiel amigo que tem mil e uma maneiras de ser preparado. Nesta cozinha da CASA DO FUNDO DO POVO preparam-se vários petiscos e ,também ,é muito usado ....Mas hoje deixo-lhes uma receita,porque foi recordada uma história da adolescência  de que eu ainda não conhecia todos os pormenores.
Numas férias grandes de Verão o mano Bernardo ,e o primo inseparável ,foram à vila com o encargo de fazer compras para a Casa. Mas o tempo chegou para deambularem até um pedaço de terreno entre duas estradas, e que por tal razão não teria dono,onde existia uma  muito alta nogueira. E tal como dois esquilos deslizantes toca de apanhar umas nozes.Só para comer,porque a Casa não me lembra de terem chegado nozes. As calças dos fatos de Verão, oferecidos pela Fada Madrinha, de tecido comprado a vendedor duvidoso que andava de porta em porta, não resistiram a tal aventura e as do mano Bernardo sofreram enorme rasgão. Ora acontece que o padre da freguesia ia a passar e decide parar para cumprimentar os dois jovens que sabia estudarem fora da aldeia e serem bem comportados...O mano Bernardo, sem mais nada a jeito, trata de tapar o rasgão das calças com o peixe do bacalhau antes comprado. E teve que se aguentar o tempo da conversa meio de lado, imagino, sem liberdade de movimentos, olhando o senhor padre nos olhos de modo a não levantar suspeitas.
A receita fica para o próximo episódio...e isso faz-me lembrar a maneira do mano contar histórias que sempre no ponto mais interessante  me deixa em suspense dizendo : " Próximo episódio amanhã, à mesma hora!"

segunda-feira, 13 de abril de 2015

VERDE ATREVIDO

Estão assim as vinhas que rodeiam a Casa do Fundo do Povo pequenas,mas já a exigirem tratamentos. Continuam os trabalhos que nunca acabam neste ciclo constante. Apenas são mais intensos durante alguns meses e menos intensivos em Julho e Agosto.
Olhamos em volta e só vimos vinhas novas em largos patamares. Em breve deixaremos de ver as vinhas tradicionais de geios mais estreitos e com outro tipo de poda/vara. Já poucas pessoas vemos a trabalhar nelas e são mais as máquinas que se ouvem logo pela manhã. è preciso começar o dia cedo,porque  a partir do meio dia o sol é quente.
Olho em volta e gosto do verde atrevido das árvores que nos rodeiam,das vinhas que de um momento para o outro cresceram drásticamente e em alguns dias vão "pedir" sulfato...para já levam enxofre e é muito o pó amarelo que anda no ar não só do fungicida,mas também muito pólen de muitas árvores em flor.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

PRINCESA GILDA

O vento, outra vez frio, arranca as flores às nossas cerejeiras e forma um tapete branco no chão. " Gilda, Gilda vem ver ..."  murmura  ele.Acredito que seja possível que alguém a morrer de saudades das suas longínquas  e extensas terras, cobertas de neve, possa ter sido iludido por flores  a esvoaçar como leves flocos , por um tapete branco,por um "mar" de  árvores em flor.
Gilda era filha de um grande  senhor dos povos do Norte .
No Al-Gharb foram,assim, as amendoeiras plantadas por amor do Califa Ibn-Almundin para que a sua bela princesa não morresse de nostalgia. Só poderia ter sido recomendação de um poeta, depois de magos e sábios de todo mundo não perceberem porque não se arrancava um sorriso à princesa Gilda.
Por aqui, talvez tenha sido o amor à terra que fez plantar amendoeiras e cerejeiras,apesar de,  também, por aqui passaram reis mouros e as suas princesas.